quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Órfãos de pais vivos

"Há uma tragédia moderna que não é notícia nas telejornais, não convoca minutos de silêncio e não dá direito a velas acesas nas redes sociais, a dos alunos órfãos de pais vivos. Estão ali, sentados na sala de aula, com mochila às costas, telemóvel no bolso e um vazio educativo que nem a internet consegue preencher.

Os pais existem. Respiraram de manhã, deixaram a criança à porta da escola, deram um beijo apressado e seguiram para a verdadeira vida, essa entidade mística chamada agenda. Mas educar? Educar dá trabalho. Educar ocupa tempo. E tempo, como todos sabemos, é coisa demasiado preciosa para ser desperdiçada a ensinar frustração, responsabilidade ou a arte revolucionária de lidar com um “não”.

Hoje, educar os filhos para viverem em sociedade é visto como uma espécie de hobby radical, ao nível do alpinismo sem cordas ou da leitura de instruções antes de montar um móvel do IKEA. Os pais querem filhos felizes, não preparados. Querem crianças blindadas, não competentes. Superprotegem-nas do mundo real como se este fosse uma doença contagiosa que só ataca depois dos 18 anos.

Não sabem, ou não querem saber, ensinar os filhos a resolver problemas. Para isso existe sempre alguém: o professor, a escola, o psicólogo, o sistema, o Ministério, o planeta. Nunca os pais. Esses estão ocupados a trabalhar para ganhar dinheiro ou a gastá-lo com convicção moral: no ginásio, no jogging existencial, no copo ao fim do dia, no jantar com amigos onde se discute, com ar grave, “o futuro das crianças”.

Nada pode contrariar a criança. Nada pode frustrá-la. Nada pode magoar o seu ego ainda em fase de amaciamento. A criança manda. O adulto obedece. E assim se forma o novo cidadão: incapaz de lidar com um contratempo, um erro ou uma palavra que não comece por “parabéns”.

Depois há o momento sublime da hipocrisia: quando os pais exigem que a escola faça aquilo que eles próprios não fizeram. Querem professores mágicos, capazes de ensinar limites sem os impor, responsabilidade sem conflito e respeito sem autoridade. Querem educação sem esforço. Uma espécie de fast-food pedagógico, rápido, confortável e sem efeitos secundários visíveis, pelo menos até à idade adulta.

E um dia, inevitavelmente, o ciclo fecha-se. Os pais envelhecem. Os filhos crescem. E aqueles que nunca aprenderam a cuidar, a esperar, a ceder ou a resolver passam a decidir. Os pais tornam-se órgãos dos filhos, não no sentido médico, mas funcional, servem para sustentar, pagar, resolver e calar.

É o legado perfeito de uma geração que confundiu amor com ausência, liberdade com abandono e educação com um incómodo logístico."

Rui Cardoso 


Bom Natal🎄🎁🧑🏼‍🎄🦌

Bom Ano 🌍🧬♥️☀️

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Literar

Vai à loja e traz dez pães, se tiver ovos, traz seis.
Cheguei a casa com seis pães.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Difícil

A ética é muitas vezes o reflexo das nossas preferências, dos nossos medos e das nossas fraquezas. 

6 da manhã

Se matarmos uma barata fazemos bem, pelo contrário, se matarmos uma borboleta, fazemos mal. Nós não julgamos pelo valor real das coisas, mas pelo seu brilho: o belo é santificado, o feio é condenado. 
A moral não nasce da justiça, nasce do gosto.

sábado, 8 de novembro de 2025

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Poetry

Poesia é... o espelho do poeta é um elefante imitando uma gazela é o que nós quisermos.

Adília Lopes 

A consistência

Pediram-me um texto sobre a consistência. Acho muito abstracto para mim. Em que consiste a consistência? Quem vigia os vigilantes? Não vale a pena desconversar. Comprei gelatina de ananás, uns copos, estava líquida, estragada, não tinha a consistência da gelatina. Mas os líquidos também têm a sua consistência, só que não é a da gelatina. Cada coisa tem a sua consistência. Uma cadeira do curso de Física de que gostei muito foi Física da matéria condensada. Um texto tem de ter consistência. Pode não ser a do aço, do betão. O soro, o ar também têm consistência. Faz-se um bolo, deitam-se os ingredientes para uma tigela, mexe-se com a colher e a colher fica em pé. A massa tem consistência. Massa de pão? Há textos que têm a consistência do ar. E há o vazio. A consistência do vazio. A consistência do mundo, do infinito.

Adília Lopes 

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Claro

Questões de juízo diferem de questões de opinião ou gosto, nas quais é inteiramente aceitável que haja diferenças.

Ruído, Daniel Kahneman