sábado, 29 de agosto de 2026

Desejo

Desejo primeiro que você ame,

E que amando, também seja amado.

E que se não for, seja breve em esquecer.

E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,

Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,

Que mesmo maus e inconsequentes,

Sejam corajosos e fiéis,

E que pelo menos num deles

Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,

Desejo ainda que você tenha inimigos.

Nem muitos, nem poucos,

Mas na medida exata para que, algumas vezes,

Você se interpele a respeito

De suas próprias certezas.

E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,

Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,

Mas não insubstituível.

E que nos maus momentos,

Quando não restar mais nada,

Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,

Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,

Mas com os que erram muito e irremediavelmente,

E que fazendo bom uso dessa tolerância,

Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,

Não amadureça depressa demais,

E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer

E que sendo velho, não se dedique ao desespero.

Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e

É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,

Não o ano todo, mas apenas um dia.

Mas que nesse dia descubra

Que o riso diário é bom,

O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,

Com o máximo de urgência,

Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,

Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,

Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro

Erguer triunfante o seu canto matinal

Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,

Por mais minúscula que seja,

E acompanhe o seu crescimento,

Para que você saiba de quantas

Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,

Porque é preciso ser prático.

E que pelo menos uma vez por ano

Coloque um pouco dele

Na sua frente e diga:`Isto é meu",

Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,

Por ele e por você,

Mas que se morrer, você possa chorar

Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,

Tenha uma boa mulher,

E que sendo mulher,

Tenha um bom homem

E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,

E quando estiverem exaustos e sorridentes,

Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,

Não tenho mais nada a te desejar.


Sérgio Jockyman


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Filipe Homem Fonseca

 “50 anos a celebrar o 25, e hoje há quem nos diga “mas lutem baixinho, não acordem os turistas e os nómadas digitais, vão mais para ali que é para não se verem as tendas dos que vivem na rua, olhem que dá mau aspecto, respeitinho é muito bonito, boas maneiras à mesa mesmo sem nada para comer, partir a louça é que não, pensem como vos dizemos para pensar, vivam como vos deixamos viver; despolarizem, filhos, despolarizem, a liberdade de expressão tem as costas largas quando é para impormos limites à liberdade dos outros, já não se admite fora da tradição, ai a tradição, ai; o corpo é de quem?, é de quem, o corpo?, porque é que o corpo é de quem o tem?, então e a família?, a família só é família se for tradicional, tomem lá a conversa de que nos querem obrigar a coisas mesmo quando só querem é que não vos obriguemos a coisas que só a vós dizem respeito; tomem lá o discurso de que vivem acima das vossas possibilidades, agradeçam terem emprego sequer, engulam esta de que os imigrantes explorados é que têm a culpa da crise, esqueçam os lucros da banca e os salários miseráveis, tomem lá banda larga e muito circo, chupem gourmet, chupem low cost, roam um papo-seco e façam filhos, que esta Disneylândia precisa de quem produza riqueza para os acionistas; em cada rosto igualdade?, não: em cada filho um colaborador futuro, trabalhador não, co-la-bo-ra-dor, um colaborador é mais empenhado, o empenho prescinde direitos, querem que isto avance ou não querem?, um passo atrás de cada vez, 50, 49, 48, sempre a puxar para trás, rumo a 74, a antes do 25, então não se estava tão bem?, antes é que era”; e a resposta é, hoje e sempre, só pode ser: não, não, não, não passarão, não passarão, não passarão.”

ERRATA: A propósito da frase que Filipe Homem Fonseca citou, de Sísifo ter de gostar da pedra (a frase correcta é “Há que imaginar Sísifo feliz”) – Filipe atribuiu-a a Vitor Hugo quando é, na verdade, de Albert Camus.

sábado, 15 de agosto de 2026

Respeito

Um texto costuma ganhar muito quando sabe respeitar o silêncio do leitor.

O vício dos livros, Afonso Cruz 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

E os wokes?

Por exemplo, um bom pai, por se preocupar com o comportamento do seu filho, pode usar palavras duras ou mesmo bater-lhe. Pode estar furioso com a criança, mas não encontra qualquer desejo de The fazer mal.

Fúria, Dalai Lama 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Risada

O juízo que amiúde se faz, sobretudo nas reacções apressadas e tantas vezes violentas - testemunhadas nas caixas de comentários de jornais e em redes sociais, deve-se precisamente (embora, claro, haja outros factores que contribuem para isso) a uma falta de narrativa, de história, de conhecimento. 

O vício dos livros, Afonso Cruz 

Sobre a praga de didactismo

moral na literatura infanto-juvenil, ouvi-o dizer: a literatura não serve para ensinar, quando muito, desensina. 

O vício dos livros, Afonso Cruz 

Gosto

Em japonês, existe uma palavra para a pilha de livros por ler: tsundoku.

O vício dos livros, Afonso Cruz 

Mais 4

Seria expectável que um grande leitor fosse aquele com menos livros por ler na sua biblioteca, pois leu muitíssimo, mas não é isso que acontece: o melhor leitor tem sempre cada vez mais livros por ler. Quanto mais lê, mais essa lista aumenta. 

O vício dos livros, Afonso Cruz 

domingo, 9 de agosto de 2026

Não era isto

Toda a gente se frustra, sim, incluindo os reis e as rainhas, porque, ao porem a sua coroa de ouro e diamantes em frente ao espelho, uma voz interior diz-lhes: «Não era isto.» Não era isto, nunca é isto aquilo que desejávamos, mas sim o que isto representava, daí a corrida louca dos seres humanos para a morte, abandonando na sua esteira objetos de desejo que não eram. na sua natureza.

A Consciência contada por um sapiens a um neandertal, Millás e Arsuaga 

Cooperação

Permite-me, no entanto, que faça um desabafo pessoal que tem que ver com a minha filosofia de vida: eu não acredito nessa coisa a que chamam amizade, que é tão valorizada.

A Consciência contada por um sapiens a um neandertal, Millás e Arsuaga 

Continua

Pouco. Como nos dá prazer pormo-nos à sombra se o sol nos está a incomodar. Mas estou a falar do orgasmo, do superorgasmo feminino, aquele que nós, homens, nem sequer conseguimos imaginar. Se o génio da lâmpada me aparecesse e me dissesse para pedir um desejo, pediria um orgasmo feminino.

A Consciência contada por um sapiens a um neandertal, Millás e Arsuaga 

Inveja

O orgasmo masculino é como o de qualquer outro mamífero, não tem nada de especial, é igual ao de um burro ou de um cão: uma descarga e já está. O da mulher não é parecido com nenhum outro, é um tsunami fisiológico, nervoso, de uma intensidade tal que os homens nem sequer conseguem imaginar. E mais, podem ter vários seguidos. Deve ser o cúmulo, o máximo. É uma bomba.

A Consciência contada por um sapiens a um neandertal, Millás e Arsuaga 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Bem dito

Tolstói dizia que entender tudo é perdoar tudo, mas um filho da puta é um filho da puta. Mesmo que ele não possa ser outra coisa, está-me a lixar. Talvez lhe tenha faltado o afeto da mãe, talvez o pai o tenha abandonado em criança, mas se é um filho da puta, é um filho da puta.

A Consciência contada por um sapiens a um neandertal, Millás e Arsuaga 

Ansiedade

Corre, corre, já estamos atrasados para ir a lado nenhum. 

A Consciência contada por um Sapiens a um Neandertal, Millás e Arsuaga