quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Manuel Maria Barbosa du Bocage

"A Água"

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Ambivalência

Sinto-me mal por me estar a sentir bem
Por favor, não digas a ninguém.
Não reveles o abismo na minha alma,
Desculpa, tem um pouco mais de calma.

O sofrimento que o prazer me deu
Me tornou mais pequeno debaixo do céu,
Me familiarizou com a solidão
Que sempre almejou e me quis ter na mão.

Os sentidos que sempre uniram os cacos,
Me responsabilizaram pelos meus hiatos.
Cresceram em verdade e ironia,
Como a noite, sempre, preexiste ao dia.

A morte que sempre me assustou
Soube o preço, desistiu, não comprou.
Tanta vida no velório de um momento,
O meu aliado e confidente será o tempo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Difícil...

"O que quero dizer é que, quando pessoas civilizadas e socialmente competentes cospem veneno inesperado, é possível que o façam por razões estratégicas. Os alvos podem interpretar um raro acesso de fúria do seu chefe como feedback negativo merecido. E isso é capaz de os fazer trabalhar com mais afinco. Assim, e especialmente em situações competitivas, os idiotas temporários que repreendem, fulminam com o olhar ou ignoram pessoas que costumam tratar com simpatia e respeito podem, com essa atitude, estimular o desempenho."

Como sobreviver a um filho da p*ta, Robert Sutton

Loucos

"Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.
Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?"

Lucas, 12

domingo, 5 de agosto de 2018

Praxes

"A imagem de marca dos pequenos tiranos - incluindo muitos "nazis de serviço" - é que o seu poder sobre um domínio restrito está associado ao baixo prestígio; fervem de raiva e amuam por causa da falta de respeito que suscitam. Este abuso de poder e de baixo estatuto social dá origem a uma mistura fatal - leva-os a descarregar as suas frustrações e ressentimentos nos outros. Nathanael Fast e os seus colegas da Universidade do Sul da Califórnia realizaram uma experiência que desencadeava este tipo de abusos em estudantes universitários."

Como sobreviver a um filho da p*ta, Robert Sutton

domingo, 29 de julho de 2018

E se os Xutos & Pontapés, tendo Marcelo e Costa no palco, cantassem Estupidez?

O saudoso Zé Pedro, se cá estivesse, gostaria muito dessa homenagem!!! 
Se não conhecem, vale a pena ouvir a música e interiorizar a letra.



Estupidez
Estupidez gananciosa
Leva-me o país prá cova
Estupidez gananciosa
Leva-me o país prá cova
Gestores, tangas, aldrabões
Já só falam de milhões
Mesmo que o resto fique a olhar
Sem ter um sítio seu para morar

Qualquer dia é tudo francês
Ou alemão
Mas não português

E depois
E depois, morreram as vacas
Ficaram os bois
Foram-se os dedos
Ficaram os anéis
E o resto
Anda tudo aos papéis
E é por isso
Que a meu ver
Está tudo mal, está tudo mal
Nesta Europa de Portugal

Qualquer dia é tudo francês
Ou alemão
Mas não português
Falta pedir ao rei espanhol
Licença para ir apanhar Sol

Uns à volta do tractor
Outros ó sr. doutor
Quem me tira desta aflição
Agarra-me aqui com a mão

Eu até era um homem honesto
Nunca fiz nada funesto
Pedi à Europa para me apoiar
E agora a minha sina é roubar

1º Ministro
1ª Dama
E tu, queres ir prá cama
Anda tudo a ver se mama
Nesta união da tanga

Qualquer dia é tudo inglês
Ou italiano
Mas não português

E depois
E depois, morreram as vacas
Ficaram os bois
Foram-se os dedos
Ficaram os anéis
E o resto anda tudo aos papeis

E é por isso que a meu ver
Está tudo mal, tudo mal
Nesta Europa de Portugal

Qualquer dia é tudo francês
Ou alemão
Mas não português
Falta pedir ao rei espanhol
Licença para ir apanhar Sol

Antes quero ser um Velho do Restelo
Que um fascista sem cabelo

Antes quer ser um Velho do Restelo
Que um fascista sem cabelo


terça-feira, 17 de julho de 2018

Saudade

Quando chegava a casa,
o meu Piruças trazia sempre a sua língua de ternura
e tocava em todos os sinos da festa.
Até eu lhe por a mão 
que para ele,
Era o meu coração.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Sapiens

Choro muitas vezes
Das vezes em que não me ri,
Quando o devia ter feito,
Por vergonha.
Acreditei que o riso fosse
Uma provocação, um abismo.
Uma negação do infinito,
Que está escrito.
Das vezes em que,
Alienado, não me ri,
Dos disparates que faço...
Das palavras que não controlo,
Que podem ser grandes e pequenas,
Em sentido,
Sofrido,
Como o que tenho vivido.
Das vezes em que me esqueço
Que sou um pormenor
Do tempo e do espaço
E que alguém,
Superior,
Ominisciente e Omnipresente,
Brinca comigo.
Me dá a luz.
Me faz acreditar que sou,
O que não sou.
Me chama, quando quer.
Como um carteiro, 
Que toca à campainha,
Abruptamente.
E que se diverte,
Com um humor pueril,
A ver-me repudiar a minha condição
Da forma menos honesta e menos colorida,
Como a terra é comida.
Das vezes em que,
Como se eu fosse uma marioneta,
Com os fios atados aos dedos,
Me move e me faz entrar e sair de cena,
A seu bel-prazer.
Das vezes em que, sem razão aparente,
Me pesa os sentimentos,
Me envelhece em passado, 
Me subtrai em bondade,
E me faz respirar
O ar frio com pulmões de
Verdade: nua, crua, dura, sua,
E rasga o futuro
Com mãos de veludo
Até ao início
Da festa.