sexta-feira, 26 de julho de 2024

Kafka

Não desesperes, nem sequer por não desesperares. Quando já tudo parece ter chegado ao fim, novas forças avançam, o que significa que estás vivo.

Ainda consigo sentir um contentamento ocasional com traba- lhos como «Um Médico de Aldeia» [...], mas só sinto felicidade quando consigo elevar o mundo à pureza, à verdade, à imutabilidade.

Grande chuvada. Oferece-te à chuva, deixa-te atravessar pelas fortes bátegas, desliza na água que te quer arrastar, mas mantém-te e espera assim, de pé, o Sol que há de brilhar com os seus raios infindos.

Seis

Poesia não é apenas uma espécie de música composta por syllabas, mas também, e principalmente, o esforço silencioso no caminho de Deus.

Ao ouvido do Moribundo, Antologia Desesperada da Poesia Portuguesa, Barahona

sábado, 20 de julho de 2024

Pedro Oom

A POESIA não necessita de «ser salva» porque o que nós entendemos por poesia não necessita de espécie alguma de salvação. Todo o acto de revolta ou de rebeldia, todo o processo de violentar «a natureza» e de desconhecer o direito e a moral é para nós poesia embora não se plasme, não se fixe, não se possa generalizar e aquí está, implícita, a recusa terminante de amarrar o poeta a uma técnica, seja ela qual for, mesmo a mais actual, a mais oportuna, porque, precisamente, o que o distingue do homem de técnica é um sentido de não oportunidade, de inoportunidade, que lhe advêm de uma clarividência total e duma insubmissão permanente ante os conceitos, regras e princípios estabelecidos. Com isto não queremos dizer (Deus nos livre!) que o poeta seja um louco, um visionário, mas que, se ele tem de possuir uma estética e uma moral é, sem sombra de dúvida, uma estética e uma moral próprias.

A poesia é um meio de conhecimento e acção de cujos frutos, bons ou maus, só o poeta aproveita (facto, este, de que muito poucos se dão conta) e daí a inutilidade dos esforços para ligá-lo a qualquer filosofia, política ou teologia, inutilidade que se não desmente no caso de ser o próprio poeta a tentar essa aproximação. É (foi) o caso de Régio como o de Mayakovsky: a sua voz continuará estranha e o sentido das suas palavras incompreensível mesmo para aqueles que escolheu como amigos ou correligionários. É que o poeta é rebelde sem premeditação, frio, esforçadamente -de-pistola-em-punho ou anti-caridade-encostada-as-esquinas-caneta-na-mão-lágrima-de-jacaré, Daí que resultem contraditórios os termos de poeta católico, marxista, surrealista, existencialista, anarquista ou socialista, quando não se desconhece que só ao poeta é dado compreender o poeta. Daí que resultem ridículas as homenagens colarinho-alto ou selecta-de-infância com que é costume, aqui e lá fora, enfaixar o cadáver daqueles que como Fernando Pessoa, Rimbaud ou Gomes Leal foram em vida o mais esforçado testemunho contra o bom-senso-não-dei- tes-a-língua-de-fora.boontainebreir

O que possa haver de menos compreensível em tudo isto resulta do facto de que toda a explicação necessita de uma outra explicação para ser compreendida. Aquilo que de um modo imediato é para nós verdadeiro só será inteligível para outrem depois de uma determinada «mastigação» durante cujo processo já todo o objecto em causa adquiriu nova cor, nova forma, novo ou novos sentidos de interpretação. O poeta tem a clarividência desta transformação e daí a sua atitude, sempre de recusa a qualquer espécie de imposição, e ainda quando nos parece que um dos seus gestos adquire uma cor mais conformista, ou um tom menos violento, ele não é mais do que uma forma diferente de recusa.

1949

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Simples

Revia o falhanço da humanidade pelo estilo de vida social dos cães: «Cheira cu, cheira piça, olá-como-está?, cheira rabo, cheira cona: eh pá, isto é que é vida! E não fazem mal a ninguém.

Ao ouvido do Moribundo, Antologia Desesperada da Poesia Portuguesa - Língua Morta


Cânone

Ora aí o tendes: o cânone é um bolero, como o de Ravel. É sempre a mesma merda: tamborilamos a caixa de cor até uma certa exaustão das coisas; e assim me escuso a explicar o título de cima.

Ao ouvido do Moribundo, Nuno dos Santos Sousa 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Pois

O constante atrito entre mentes tacanhas pode acabar por roer as melhores resoluções dos homens mais generosos.

Bartleby, O Escrivão, Herman Melville 

domingo, 14 de julho de 2024

Nietzsche

Como seria, se um dia ou uma noite, um demónio impercetivelmente se arrastasse até à sua mais isolada solidão e lhe dissesse: "Esta vida, tal como a vives agora e tens vivido, terás de vivê-la novamente inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, mas sim hão-de voltar cada dor e cada prazer, e cada pensamento e suspiro, e tudo o que é indizivelmente pequeno e grande na tua vida, e tudo na mesma ordem e sequência, e de igual modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência está sempre de novo a ser virada, e tu com ela, ínfimo grão de pó da poeira!" - Não se lançaria ao chão, rangendo os dentes e amaldiçoando o demónio que assim falava?

Ou experimentou alguma vez um portentoso instante, em que lhe responderia: "Tu és um deus e eu nunca ouvi nada de mais divino!" Se este pensamento o dominasse, tal como é, transformá-lo-ia talvez, mas talvez o aniquilasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?" (...)

sábado, 13 de julho de 2024

Top

Deste modo, a criança resiliente é aquela que é alimentada pelo amor dos seus pais e que, graças a esse amor, consegue manter intacta a sua harmonia emocional num mundo onde o stress está sempre presente, e que um dia foi convidada por um louco sonhador e poeta a imaginar mundos possíveis, a acreditar na beleza do mistério da vida e a conquistar a verdadeira liberdade, que consiste em descobrir no seu interior esse sopro subtil chamado alma.

Educar as Emoções, Amanda Céspedes 

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Beckett

Na aprendizagem, não há lugar para o fracasso porque os erros são um modo de aprender que é tanto ou mais válido do que os acertos.

Educar as emoções, Amanda Céspedes

terça-feira, 2 de julho de 2024

Pois

Na Idade Média, o rompimento da palavra dada era coisa gravíssima, que acarretava a quebra da dignidade, a perda da honra e a ignomínia para o autor de tal malfeitoria.

Episódios da História de Portugal, Ricardo Raimundo