segunda-feira, 13 de maio de 2024

Eu também

Acho que os livros descrevem as pessoas que os têm entre as mãos.

Irene Vallejo, O infinito num junco 

terça-feira, 7 de maio de 2024

É isto.

Portugal 


Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse

oitocentos

Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de

África

só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais

e nunca mais voltasse

Quase chego a pensar que é tudo uma mentira

que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney

e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente

Portugal

Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional

(que os meus egrégios avós me perdoem)

Ontem estive a jogar poker com o velho do Restelo

Anda na consulta externa do Júlio de Matos

Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar

àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de

rosas

Portugal

Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do

Império

mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado

Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pérola que fosse

das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador

Portugal

Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém

Sabes

Estou loucamente apaixonado por ti

Pergunto a mim mesmo

Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu

mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal

e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade

Portugal estás a ouvir-me?

Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada

de ressentimentos

um dia bebi vinagre nada de ressentimentos

Portugal

Sabes de que cor são os meus olhos?

São castanhos como os da minha mãe

Portugal

gostava de te beijar muito apaixonadamente

na boca


Jorge Sousa Braga, De Manhã Vamos Todos Acordar com uma Pérola no Cu


O livro é sobre

o modo como a televisão estava a destruir "o nosso interesse pela leitura e pela literatura" e a "transformar as pessoas em imbecis" ("It is about people being turned into morons by TV").

Fahrenheit 451, Ray Gradbury 

Estamos em 1953...

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Malucos

Dê-se a um homem um par de versos e ele julgará que é o Deus da Criação, que pode andar sobre água graças aos livros.


Fahrenheit 451, Ray Gradbury 

sábado, 4 de maio de 2024

Certo

Os livros eram apenas um tipo de receptáculo em que guardávamos as coisas que tínhamos medo de perder. Em si mesmos, nada têm de mágico. A magia está no que eles nos dizem, em como nos apresentam uma única peça feita da costura de vários bocados do universo. É claro que não poderia saber isto, é claro que ainda não entende o que quero dizer com tudo isto. Mas, intuitivamente, está no caminho certo, e é isso que conta.


Fahrenheit 451, Ray Gradbury

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Ilha maior

Cada vez mais, o conhecimento de cada um seria um arquipélago mínimo no incomensurável oceano da sua ignorância.


O infinito num junco, Irene Vallejo

terça-feira, 16 de abril de 2024

Bem visto

O alfabeto foi uma tecnologia ainda mais revolucionária do que a Internet. Construiu pela primeira vez essa memória comum, expandida e ao alcance de toda a gente.

O infinito num junco, Irene Vallejo 

Eureka

Borges, que pertencia ao grupo dos que pensam da segunda forma, escreveu: «Dos diversos instrumentos do homem, o mais surpreendente é, sem dúvida, o livro. Os restantes são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da sua visão; o telefone é a extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

O infinito num junco, Irene Vallejo 

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Me too

Cresci, mas continuo a manter uma relação muito narcisista com os livros. Quando um relato me invade, quando a sua chuva de palavras penetra em mim, quando compreendo de forma quase dolorosa o que conta, quando tenho a segurança - íntima, solitária - de que o seu autor mudou a minha vida, volto a acreditar que eu, especialmente eu, sou a leitora de quem esse livro andava à procura.

O infinito num junco, Irene Vallejo 

Poesia

No seu esforço para se perpetuarem, os habitantes do mundo oral aperceberam-se de que a linguagem rítmica é mais fácil de recordar, e foi nas asas dessa descoberta que nasceu a poesia. Ao recitar versos, a melodia das palavras ajuda a repetir o texto sem alterá-lo, porque a música se quebra quando a sequência falha.

O infinito num junco, Irene Jalejo