sábado, 9 de julho de 2022

Fecho Éclair

Filipe II tinha um colar de oiro,

tinha um colar de oiro com pedras rubis.

Cingia a cintura com cinto de coiro,

com fivela de oiro,

olho de perdiz.


Comia num prato

de prata lavrada

girafa trufada,

rissóis de serpente.

O copo era um gomo

que em flor desabrocha,

de cristal de rocha

do mais transparente.


Andava nas salas

forradas de Arrás,

com panos por cima,

pela frente e por trás.

Tapetes flamengos,

Combates de galos,

alões e podengos,

falcões e cavalos.


Dormia na cama

de prata maciça

com dossel de lhama

de franja roliça.

Na mesa do canto

vermelho damasco,

e a tíbia de um santo

guardada num frasco.


Foi dono da Terra

foi senhor do Mundo,

nada lhe faltava

Filipe Segundo.


Tinha oiro e prata,

pedras nunca vistas,

safiras, topázios,

rubis, ametistas.

Tinha tudo, tudo,

sem peso nem conta,

bragas de veludo,

peliças de lontra.

Um homem tão grande

tem tudo o que quer.


O que ele não tinha

era um fecho éclair.


António Gedeão

Wallace Stevens

"Não é todos os dias que o mundo se organiza num poema", mas todos os dias tentamos fazer com que alguns poemas se tornem mundo. A despeito de todos os esforços de dissuasão, desistir de o fazer não é uma opção humana.

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Lapalice

Se deseja ser amado, ame. 

Se deseja ser apreciado, aprecie. 

Se deseja ser respeitado, respeite. 

Li hoje

 É melhor ser odiado por quem somos do que amado por quem não somos. 

Pimba

 É fácil viver no mundo segundo a opinião do mundo. 


Ralph Emerson 

Gosto

Longe das ideias de atos maus e de atos bons há um prado.

Encontrar-me-ei contigo lá.

Quando a alma se deita naquela erva, o mundo

está demasiado cheio para que falemos dele.


RUMI, POETA PERSA,

Século XIII

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Silêncio

O homem só pode ser ele próprio quando está sozinho; se não ama a solidão, não ama a liberdade; pois só quando se está sozinho se é realmente livre.


Schopenhauer, Ensaios e Aforismos, 1851

domingo, 3 de julho de 2022

Bluma

Entranhava-se quando estávamos com ela e quando nos afastávamos também. Poderíamos pensar que o seu encanto perderia efeito uma vez que nos afastássemos, mas a verdade era outra e estar sem ela tornava-se uma ausência absoluta. Quando nos despedíamos, era o princípio dos momentos mais difíceis.

Sinopse de Guerra e Paz, Afonso Cruz 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

domingo, 12 de junho de 2022

AMALIA BAUTISTA

A dor não humaniza, não enobrece,
não nos faz melhores nem nos salva,
nada a justifica nem a anula.
A dor não perdoa nem imuniza,
não cria nada e nada a destrói.
A dor existe sempre e sempre volta,
nenhum dos seus atos é o último
mas todos podem ser definitivos.
A dor mais horrível pode sempre
ser ainda mais intensa e ser eterna.
Anda sempre acompanhada pelo medo.
Os dois se alimentam um ao outro.